Eu queria ser o menino
que a lua antes olhava
e para ela fazia versos
como para a namorada.
Para a lua eu contava
as coisas mais secretas,
das que germinam
o coração dos poetas.
Tinha algo inebriante,
não sei o que de mágico
que foi se embora
num relance, tão fácil.
Fico a me perguntar
em que céu a perdi,
a lua de antigamente
que queria toda para mim.
Tenho pena dos homens
que crescem de mais,
e que têm a lua no céu
Mas não a veem mais.
Tenho pena dos homens
que se banham em frieza,
incapazes de ver no céu
um pedaço de lua e ter firmeza.
Tenho pena de mim,
pássaro perdido a voar,
pena do que já perdi
por não poder me equilibrar.
Porque meu maior sonho
para o mundo é uma besteira:
sonho de, para maior alegria,
ser poeta a vida inteira.
25 de janeiro de 2019
10 de janeiro de 2019
POEMA DE DOMINGO ------ Por um momento
POR UM MOMENTO
Deixes para
lá
as coisas
menores,
as coisas
menores
da vida,
que só nos
põem a
caminhar
por ali,
inertes, à
deriva.
Deixes que
falar
sobre os
males,
dos males
tristes
e vãs,
que não são
belos
nem
agradáveis
feito as
manhãs.
Não te
atormentes
por um
momento
com
discussões,
quando há
melhores:
a poesia do
mundo
e as
canções.
Deixes para
lá,
deixes de
te torturares
qual as
madalenas,
pois há no
céu,
para
enfeitiçar,
estrelas
serenas.
Por um
momento
não te
importes
com outro mais,
apenas com
o que
possa te
embriagar
de alegria
e paz.
Deixes para
lá
as pequenas
coisas,
as coisas
pequenas
do mundo,
porque a
vida passa,
amigo,
passa pelos
fundos...
30 de dezembro de 2018
POEMA DE DOMINGO -- ----Soneto de amizade
SONETO DE AMIZADE
Para Rosângela, Anita, Sabrina e Verônica
Amigos,
Deus me deu em número limitado
mas os
melhores que uma criatura pode ter.
Aqueles que
me vão, pela vida, acompanhados
e
proporcionam à minh‘alma uma riqueza de viver!
Sou caminhante
e pelo mundo prossigo sossegado
porque
tenho amigos do meu agrado e do meu querer,
estes com
os quais me sinto feliz quando estão ao meu lado
e que fazem
o meu coração se avivar e se enternecer.
Amigos,
vocês são o tesouro que encontrei sem procurar,
que eu
cuido e escondo, sem escolher ocasião,
para que
nenhum ladrão mal me possa roubar.
Guardaria-os
onde fosse preciso, até no fundo do porão,
porém já
estão guardados, e só eu os posso encontrar:
no interior
do meu vasto mas singelo coração.
30/12/2018
24 de dezembro de 2018
CRÔNICAS DA CIDADE ----- Quem é que paga?
Quem
é que paga?
|
E
|
nquanto eu lavava a área de
serviço da casa em que moro e mudava as plantas de lugar, ia escutando a
conversa que se passava do outro lado da rua. Porque na zona urbana é assim, só
a muito custo se escondem até mesmo os segredos mais profundos. E assim ia eu,
escutando sem querer, mas com aquele ar de curiosidade.
E a
conversa que eu escutava envolvia criança, e por que tinha a ver com criança me
chamava ainda mais atenção. Foi quando ouvi um dos vizinhos gritar, sem querer
poupar decibéis:
--- O pai
dele vai pagar! O pai dele vai pagar!
Aí entendi
tudo: um menino tinha feito uma malinação em alguma coisa do homem. Tamanha
fúria tinha uma justificativa.
Ante esse
ocorrido, me coloquei a pensar, e também me veio esse questionamento: Quando um
menino mexe, por ofício da curiosidade ou de danação, em um objeto nosso, a
conta dirige-se a seu responsável, que sempre, ou quase sempre, supre o nosso
prejuízo; mas quando somos nós que fazemos mal a uma criança, quem reembolsa
por ela? Quem paga a conta dela?
Quem é
que supre a falta de amor a que tantas crianças, nos lares e fora deles, estão
submetidas? Quem é que paga, da mesma forma, a violência física e moral que
condena, para sempre, o presente e o futuro dos pequeninos? Quem liquida a
falta de conselho, de sensibilidade, atributos de que tantos pais e cuidadores
são carentes? Quem é que vai depositar na conta das crianças o dinheiro que
paga o alimento que elas não têm, a roupa que não possuem, a casa ainda não
alicerçada? Quem é?... Quem arcará com os juros, a tanto por cento, da má
condução, do mal exemplo?
Todos os
dias observo a vida de muitos pequenos, e quando me pergunto sobre seu futuro,
sobre as possibilidades de eles serem homens grandes, é a angústia que me vem
ao encontro e esperança que me vem em socorro, porque sei da dureza que podem
enfrentar nos seus caminhos estreitos e inseguros. Tenho ciência disso porque
também fui criança, e sei que só a muito custo superei certas questões.
Aqueles que
ensinam as crianças o egoísmo, a brutalidade, a imoralidade e toda sorte de
infortúnios jamais vão ter, lá na frente, condições suficientes de desfazer
todo mal que lhes fazem. Porque os bens
que as crianças não recebem vão lhes fazer falta a vida toda. A educação, o
amor e a dignidade.
Num de
seus poemas, a escritora Ruth Rocha atesta: “Toda criança no mundo/Deve ser bem
protegida/Contra os rigores do tempo/Contra os rigores da vida”. E pensar que
estamos longe disso, muito longe... nos enche de dor.
Sempre que
um menino ou uma menina faz algo que os adultos detestam, há sempre uma forma
de cobrar o mal feito: com uma surra, com castigos, com palavrões e safanões...
Mas aos meninos ninguém sequer pensa em pagar pelo mal diário que lhes cometem.
E não vão pagar nunca essa conta tão grande. Como dizia a minha avó, ela vai
para o cofre das almas.
23 de dezembro de 2018
POEMA DE DOMINGO ------ Para agora
PARA AGORA
Está aqui o
que eu preciso
para o
momento.
Nem menos,
nem mais.
A palavra
sempre vem
em sua
justa medida.
À procura
de uma sede,
a palavra
põe-se ali,
a balançar-se
na rede.
Ou que a
sede a procure
já cheia de
desespero.
Mas tenho
aqui o necessário
a este
momento:
porque a
palavra não pode,
por justa
que é,
ser esgotamento.
25 de outubro de 2018
A COISA MAIS TRISTE DO MUNDO
A
coisa mais triste do mundo
A
|
coisa mais
triste do mundo é uma criança não saber o mínimo possível... A, B, C... Dá uma
tristeza na alma, porque ela não escolhe não saber. E não sabe por quê?
Lembre-se daquele menino, tão pouco consegue dizer. Quem quiser chorar, chore,
pois é a coisa mais triste do mundo.
A coisa mais triste
do mundo, quem consegue dizer? É os meninos e as meninas não saberem essa ofício pseudo-sagrado de lerem e escrever, porque os seus sonhos bonitos não expressam, pois não sabem dizer. Tem
as matas, os rios, os cães, a vida... tudo por descrever. Tem os passarinhos no
ar, as castanhas no pé de caju, coisas que dá pra contar. Tem o texto bonito, a ciência
e a arte, os quais poderiam ler. Tudo que o seus olhos grandes até querem, mas
mal conseguem ver. Não veem por quê? É triste não saber. Quem quiser chorar, é
hora, pois é a coisa mais triste do mundo.
A coisa mais triste
do mundo chama-se ignorância, e não importa se é no senhor com bigode, na
senhora de bastãozinho, ou na criança. Aquela menina bonita, da escola, só tem
mesmo a esperança de um dia aprender, como as outras crianças. Aquela menina
não boa entendedora de pobreza nem de finanças, para quem, muitas vezes, a voz
zangada de um professor ralha, ralha até quando cansa. Porque a gente, muitas
vezes, a gente demora a compreender que
o não-saber engole até mesmo as esperanças, e engole quase tudo. Mas engole por
quê? Quem quiser chorar, chore, pois é a coisa mais triste do mundo.
A coisa mais triste
do mundo é a criança não ter o que comer. Porém, ela deseja, mas nem sempre
querer é poder. E não pode por quê? E a pobrezinha o quanto sofre sem estar
também alimentada de saber! Saber que a escola deve dar, pois não está no seu
querer privar criança nenhuma de cultura e de saber. Porque saber ler,
escrever, contar, interpretar, calcular... são como o arroz, o feijão, que todo
homem e toda mulher comem e que são duma precisão... Pense naqueles pequeninos
ainda não sagazmente alimentados... a Maria ou o Raimundo... e, caso queira,
chore, pois é a coisa mais triste do mundo.
A coisa mais triste
do mundo é ter sempre a criança algo por dizer, mas o seu mestre ou mestra não
quererem disso saber. E não escutam por que aquela vida é assim, tendo a
criança querendo contar, tintim por tintim... por que é tão medonha, por que é
tão calada, por que sobe no muro, desenfreada, por que é tão rebelde... Tem
tanto a dizer, e aguarda, e aguarda...
A coisa mais triste
do mundo é quando o amor falta; amor pelos outros, outros como nós,
independentemente de quem sejam, precisa estar sempre em alta; apor pelo que
fazemos, alegres feito meninos peraltas. É essa falta de amor que tanta criança
mata. Mata sem matar, mas fazendo-a perder a fala; mata não matando, mas a
criança desaba, e põe-se a nadar em rios de quase nenhuma água; mata não
matando, contudo cortando as suas asas. Quem não tem amor pelos pequenos, que
chore, pois a falta de amor é a coisa mais grave e triste do mundo.
Mas o mal pode se ir
ladeira abaixo. Há problemas numerosos, como os de educação, passíveis de
reversão. Há de ser! O não-saber pode dar lugar ao saber. E, de repente, a
criancinha que não via começa a ver, a que não sabia começa a saber, a que nada
dizia inicia-se no exercício de dizer, e começa ainda a dar gargalhadas até não
mais poder, porque agora já saber ler, contar, escrever, e tudo quanto é
possível poder. E, nesse momento, todas as crianças podem rir, um riso tão
profundo, e que riam mesmo, porque o saber é a coisa mais bonita e mais alegre
do mundo.
25/10/2018.
29 de junho de 2018
CRÔNICAS DA CIDADE ------ Salitre, ó terra abençoada
"Salitre, ó terra abençoada
Por Deus amada, querida fulgurante"
(Hino Municipal)
D
|
e todo o hino de Salitre, a expressão “terra abençoada”
é a que melhor nos define – nós, esse povo de fé.
Assim previu o Padin Ciço ao professar, segundo a
gente de maior experiência, que Salitre havia de crescer muito e se tornar uma
cidade grande. E ele acertou em cheio porque para isso caminhamos, graças a
Deus.
Desconfie quem quiser, mas foram os cuidados do
Alto que nos trouxeram até aqui. Sim, porque nosso povo sobreviveu a toda sorte
de carências: carências materiais, dado que nossa gente, na sua quase totalidade,
não tem riqueza; carências naturais, pois que graças à localização geográfica
essa mesma gente enfrenta os dilemas da seca, grandes, porém menores que a
vontade desse povo de ser feliz com o bocadinho que tem.
Foi com fé que os primeiros habitantes, aqui
morando nas suas casinhas de taipa, plantaram mandioca. Com essa mesma fé
sustentaram a cidade, fê-la crescer para todos os lados. A mandioca, se por um
lado nunca enricou quem realmente trabalha, por outro lado jamais deixou homem
nenhum passar fome nem morrer de miséria, nem os maiores, nem os menores.
Com fé, e provavelmente muita fé, as primeiras autoridades,
lideradas por um homem, o Neoclides, acreditaram ser possível a liberdade, ser
um povo com vontade própria. Daí a emancipação política, uma luta que deve ter sido difícil, mas tornada
possível graças à fé do povo. Também com a mesma fé e a mesma determinação,
outros homens continuaram e continuam a fazer os feitos políticos.
Essa terra é realmente abençoada, porque tem
enfrentado muita coisa. E isso não é mérito de um, de dois ou de meio dúzia de
homens. Cada salitrense, a seu modo, tem
conquistado seu pão, sua farinha, tem sustentado sua família, tem enfrentado
suas dores, tem se esquivado dos problemas... Se isso não é bênção, não sei o
que é.
Independentemente da crença de nosso povo, católico
ou evangélico, é a fé que nos une e que nos faz caminhar para a frente. Isso porque
nós aprendemos, desde cedo, que sem Deus não podíamos viver bem.
Essa cidade, que agora completa trinta anos de
idade, era antes só vereda e mata. Antes aqui passavam tropeiros para descansar
por sob o tamboril grande; agora, as pessoas não só passam, ficam, porque
Salitre é terra abençoada, terra que a gente ama e quer bem. Por termos fé, não desistimos de acreditar que no futuro seus filhos terão oportunidades, não desistimos de desejar o melhor para nossos irmãos.
29 de junho de 2018
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