30 de junho de 2019

Soneto à Aniversariante

Já nasci nas tuas acolhedoras terras
por isso carrego na alma as tuas cores.
Te dou hoje o que melhor dão as primaveras,
porque por ti só sei morrer de amores.

Por ti, minha cidadezinha amada e querida,
há no céu os bonitos pássaros cantores
a cantarem os parabéns por mais vida
enquanto o vento da manhã te joga flores.

Salitre, terra que enfeita toda a Chapada
com sua vastidão, a natureza de amor se inflama
em perfeita e extensa arquibancada.

Dos céus um mar de alegria se derrama
e está em festa, ó cidade bravia e amada,
pois hoje canta e ri todo aquele que te ama.



13 de junho de 2019

O TEMPO DA VIDA


O tempo da vida
é tão pouco para
nos perdemos no
mar das coisas fúteis.
É tão pouco para
nos enveredarmos
no caminho das
coisas inúteis.

O tempo da vida
é tão pouco para
querermos mal
aos outros, para
não sermos irmãos,
para não darmos a mão.

É tão pouco esse tempo
que gastamos e que,
às vezes, tornamos
ainda mais gasto.
De caprichos
a vida se esgota.

O tempo da vida
é tão pouco para
não olharmos,
ao menos de relance,
quem por nós passa.
E, de tão pouco,
esse tempo escorre
feito fumaça.

O tempo da vida
é pouco, pouco para
não amarmos, e esse
tempo em que não se
ama degela, deságua.
 É tempo que se acaba
em vazio, em solidão,
em mágoa.

O tempo da vida
é tão pouco para
envenenarmos o
coração de raiva,
de preconceito,
de racismo.
Assim, o tempo
é pouco, é abismo.

O tempo da vida
é tão pouco para
ignorarmos Deus,
para não sairmos de
nós mesmos e
sermos a medida
de tudo.

O tempo da vida
é tão pouco porque
nós o fazemos
sempre escasso,
e talvez quando
formos nos dar
conta do que
realmente importa,
não haverá mais tempo
de sermos vastos.

Mas nós podemos
segurar um pouco os
ponteiros do tempo,
que anda em
ligeira marcha.
O tempo da vida,
que é pouco, e
inutilmente se gasta.




29 de maio de 2019

O nobel foi pra... Maria







U
m país que não tem o plano de assumir a educação como prioridade muito menos fará isso com a cultura. É o que primeiro reflito ao assistir ao as decisões tomadas pelo novo governo. Mas com felicidade sei que o governo não é só o presidente, nem só o ministro, e que além do governo há o povo de boa vontade e de compromisso, e esse povo sabe e conhece educação e faz cultura.
E nesse final de semana foi o que presenciei, através de uma ação muito grandiosa promovida pela secretaria de cultura da cidade de Salitre, num evento que homenageou os leitores da cidade, num total de 40. Durante o ano anterior, eles se destacaram por mais terem lido as obras disponíveis na biblioteca municipal.
E lá estava Maria, Maria e seus meninos, que estavam entre os homenageados.
Ela é uma senhora, leitora assídua da biblioteca. Um dia se deu conta de que, para ajudar os seus meninos nas tarefas da escola, decidiu-se a voltar para a sala de aula, matriculando-se na educação de jovens e adultos. E, como se não bastasse, fez uma carteirinha de leitor na biblioteca, e começou a pegar livros para ler.
Na casa de Maria muita gente lê, começando por ela. Tem coisa mais bonita?
A biblioteca ofereceu aos leitores pequenos mimos: um certificado de destaque, posto numa bem pintada réplica de madeira, juntamente com um copo. Enquanto as autoridades iam entregando os mimos às crianças e suas famílias, Maria mesma entregou aos seus meninos, e posou bem para a foto.
Maria é exemplo. Exemplo de que a idade ou a condição social não é impedimento para a leitura. Maria é retrato da ideia postada essa semana na rede social, que trazia o nome da escritora Ana Maria Machado, e que dizia: “O que leva uma criança a ler é o exemplo”. Mas nesse caso, as crianças de Maria é que lhe deram o exemplo.
Mas Maria é exemplo para as outras mães e para as outras famílias, pois estas precisam ornar sua rotina com livros e palavras. Precisam descobrir que ler é bom, é prazeroso e traz alegria.
Maria é grande, porque grande não é quem tem poder, e sim quem deixa entrar coisa boa na cabeça. Maria sabe que leitura educa, sabe que seus filhos serão grandes através do que encontram nos livros. Por isso o nobel de leitura vai para Maria. E todos nós precisamos seguir os passos dela; todos nós precisamos viajar livro adentro.

25/5/2019.

24 de maio de 2019

CRÔNICAS DA CIDADE - Maria da terra do boi

Foto: Verônica Aguiar



Meu nome é Maria Grosso. Mas Grosso é só nome, porque meu xerém é fino.
Quase sempre vivi por aqui, aonde o boi chegou. Meu tio foi quem deu nome a este lugar, mia fia! Mas vambora, que minha memória é só fiapo.
Quando vim para cá, em meados de não sei quando, aqui era um pedaço de chão muito bom, porém difícil, mia fia! De onde eu vim? Sei de nada não, eu não estou boa não... Maria, tu sabe? A tramontana me carregou para cá, é isso que importa.
Tá chovendo, mia fia. Ô chuva boa!
Pois é. Nessa terra do boi vinha gente daqui e dali, dessas quebradas de mundo de meu Deus. Vinha dançar a lata, no meio do terreiro... a gente botava um fogo, pra fazer luz na noite, e aí se agarrava homem com mulher. Aí a gente cantava aquela canção... Maria, como era que cantava?
Olha os relâmpagos! Virgem Maria!
Chega o povo por aqui, na minha casa, e quer saber os causos, as histórias. E eu, com a mente já feito uma cumbuca, vou narrando as coisas de que me lembro. De como um boi, tangido por seu dono, saiu do lado do Taque Novo, e veio parar aqui para beber a água da lagoa e ouvir os cantos da mãe d’água. Perguntam sobre as lendas, sobre o reisado, mas não me perguntam
sobre o que é ser negro, ou meus ouvidos estão mudos?
Meu nome é Maria Grosso, Maria da terra do boi. Negra e idosa. Negra. O que é ser negra? O que é ter essa pela tão exagerada de melanina? Negra, negra até morrer! Porque essas coisas que a natureza dá não se acabam, não fogem pelos caminhos como fugiu o boi de seu dono.
Maria, se acabou o relâmpago?
O que é ser negro num país como o nosso, ainda cheio de senzalas em que as correntes são o preconceito e o racismo? O que é ser negro numa cidade pequena, como esta, onde esses males ferozes também fazem morada? Males terríveis, que não morrem com o chá de mastruz que Maria arrancou aqui em casa.
Querem que eu diga sou negra? Eu sou negra. Negra. Mas pensam que é fácil dizer tal coisa? É não. É estranho que uma comunidade não queira se reconhecer como negra, como quilombola? Venha ser negro e me diga! Venha ter a pele que tenho. Pele que Deus me deu.
Meu nome é Maria Grosso, filha do povo que lutou para sobreviver – e ainda luta, e que foi e é importante na construção do país. Povo que foi roubado de seu chão e que aprendeu a ser brasileiro a duras penas.
Meu nome é Maria Grosso, e preciso aprender a dizer sem tristeza, em coro com o meu povo, “eu sou negro”. Me ensinem! Me ensinem valorizando minha gente, a sua cultura, os seus ritos, as suas histórias, desvendando o seu imaginário... Me ensinem! Olhando para a nossa condição atual, enxergando também as nossas necessidades, não esquecendo de ver a nossa pobreza material, que contrasta com a nossa riqueza cultural. Porque quando dissermos, juntos, “eu sou negro!”, com alegria e sem vergonha, todos nós vamos dançar juntos o reisado e vamos olhar para o presente com mais esperança, sabendo que no futuro os nossos descendentes viverão melhor do que nós. Nós sonhamos um dia não ter que baixar a cabeça por causa da cor da nossa pele. Isso não depende só de nós.
Meu nome é Maria Grosso. Negra. Idosa. Mulher. Maria da terra do boi.
Muito prazer!

13 de maio de 2019

20 de fevereiro de 2019

CRÔNICAS DA CIDADE - Antigamente, na Rua São Pedro


V
ai deslizando a noite, em sua boniteza, e a gente, bem acomodada nas calçadas, escuta, boquiaberta, as histórias correntes na boca do povo. Causos reais de pessoas das adjacências, que narram, com certa saudade, os costumes mais remotos. E eu, interessado em toda sorte de memórias inerentes ao meu lugar, fico querendo saber. E me torno sabedor mesmo, porque em perguntar não sou pusilânime.
Hoje, por exemplo, uma pessoa me dissera certas coisas, relativas ao que era a Rua São Pedro nos idos de mil novecentos e antigamente. Ali, onde hoje desfila a avenida, com seus grandes postes e com sua pracinha em que meninos marotos desenham a infância, passava uma estradinha, de um lado a outro, e em derredor era possível ver as casas e os quintais, em número pequeno.
E por ali passavam as gentes, até uma tal de Ana da Boca Quente, que vendia de um tudo e, pela alcunha, devia gostar de milongas. Mas isso é difícil saber... E no estreito da rua havia a bodeguinha dos Alferes, para quem quisesse comprar o fumo ou a cachaça.
Ali mesmo, nessa avenida, ao invés do barulho incômodo de veículos e de paredões que teimam em tirar o sossego, não havia nada disso. No passado, as luzes dos postes iam embora às dez horas da noite, pois nessa hora exata alguém era pago para desligar o motor, e as pessoas quebravam para dentro, para abastecer suas lamparinas de querosene. Ouvia-se, pois, um fechar de portas danado.
Na Avenida São Pedro as casas se acavalam umas sobre as outras. Nenhuma criatura, a menos que componha o grupo dos habitantes veteranos, e mesmo assim precisa ter a memória sã, há de imaginar um barreiro logo ali, de onde as donas de casa enchiam os potes de aguinha boa de beber.
Ali ainda viu-se muita gente estupefata ante os meios de comunicação de massa, principalmente a televisão. Esta era objeto de grande admiração e fazia das varandas pequenas salas cinematográficas. Jovens que residiam na zona rural corriam a estrada para não perderem os filmes da tarde, na casa de algum parente. Tal parente precisava ter xerém grosso, porque televisão era filé.
Concorriam com a televisão o jipe e a picape de Seu Mundoca. Este carregava o povo para Campos Sales, contudo a disputa por um assento não era pequena: quem quisesse fazer essa viagem, que pedisse logo a preferência, pelo menos um quinze dias adiantado.
Essas informações a gente descobre em pé de calçada, com quem teve a sorte de ter vivido nesse tempo. E ao descobri-las, no entremeio da noite, há riso e deslumbramento. Há tanto por saber ainda, por descobrir. Mas quem quiser saber mais vá perguntar a Neci, que ela conta.
20/2/2019
           


10 de fevereiro de 2019

POEMA DE DOMINGO ------ Ninguém mesmo

NINGUÉM MESMO

Ninguém está livre,
por mais que queira,
de quebrar os dentes
e ficar banguela.

Não está nem estará 
livre de sentir uma
dor de dente
da gota serena.

E de noitinha
ter dor de ouvido
de soltar um gemido.

Quem comer mocotó de boi, 
em exagero,
não está livre de ir,
mais de uma vez,
ao banheiro.

Não se está livre
do beijo da abelha
nem da picada da
peçonhenta.

Ninguém está livre
do instinto animal.
Nem de, num golpe
de loucura,
confundir açúcar
com sal.

Ninguém está
livre de nada.
Nem mesmo de
levar uma topada
no barro e quebrar
os dentes.

Você está
numa estrada
e uma vaca pode,
por te confundir
com capim, correr
atrás de você. 

Um cão pode morder teu pé.
Um leão pode te assassinar.
Um burro pode te de dar um coice.
Você pode soltar um grito.

Qualquer um pode ficar sem emprego.
Qualquer um pode perder a vergonha.
Qualquer um pode amanhecer azedo.

Todo mundo está destinado a correr perigos.
Todo mundo fica velho um dia.
Não tem olho que não chore de tristeza.
Acidente, tragédia e fatalidade não escolhem gente.


Todo mundo vai até morrer.

Por isso... é bom deixar de bazófia.

3 de fevereiro de 2019

POEMA D3 DOMINGO ------ Tempo de Deus

TEMPO DE DEUS
Para Rosimeire Freitas

Tudo é o tempo de Deus,
Deus é o tempo de tudo.
Só quando Ele quiser
É que o poeta estará mudo.

De nada te podes queixar
Porque Ele te deu forte escudo.
Ele te ensinou a caminhar
E a dançar a valsa do mundo.

Tens paciência, corre à janela
E vês a Estrela que faz brilhar tudo.
Nenhum escultor desenhou
A ordem tão bela do mundo.

Sorris, danças, cantarolas...
E fazes tudo por inteiro,
Que no relógio do grande Poeta
Ninguém sabe onde jaze o ponteiro.

Tudo é o tempo de Deus,
Deus é o tempo de tudo.
E antes de Ele querer
Nenhum ser estará mudo.